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👩⚕️ Introdução e apresentação da convidada – Arieli Groff
Nesta edição do Nas Quartas Usamos Freud, recebemos Arieli Groff, psicóloga com 20 anos de experiência no atendimento a mulheres. Seu trabalho se volta para o cuidado do luto e das perdas — tanto concretas quanto simbólicas —, o que a levou a estudar profundamente a Teoria do Apego, de John Bowlby, para compreender como nossos vínculos se formam antes mesmo das perdas acontecerem.
Arieli também é especialista em trauma, e costuma lembrar que “trauma não é o evento em si, mas o que vivemos internamente diante dele.”
Além da clínica, ela conduz projetos que conectam mulheres à escuta e à reflexão: é criadora do podcast “Mais um Piu” (Spotify), do Clube de Leitura Materno Online — que reúne mais de mil mulheres — e de um clube presencial em Porto Alegre. Em todos, o foco é um só: dar voz à mulher para além da maternidade, resgatando identidade, desejo e presença.
🧠 A origem dos padrões: teoria do apego e deseducação emocional
Desde cedo, a sociedade nos ensina a reprimir emoções.
Frases como “meninos não choram” e “meninas não sentem raiva” moldam uma deseducação emocional coletiva, onde expressar sentimento é sinal de fraqueza.
Com o tempo, essas crianças crescem desconectadas do próprio sentir — e se tornam adultos que não sabem identificar nem nomear o que sentem.
A Teoria do Apego explica como essas experiências formam diferentes padrões:
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O apego seguro surge quando a figura cuidadora responde de forma coerente e consistente às necessidades da criança.
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O apego evitativo nasce da ausência constante de cuidado, levando a criança a se virar sozinha.
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O apego ansioso, por outro lado, vem de um cuidado instável e ambivalente, que gera medo do abandono.
Essas primeiras relações são o molde inconsciente de como nos vinculamos — e, muitas vezes, também de como nos protegemos.
🔁 A repetição dos traumas e o falso desapego
A mente humana busca o familiar, não o saudável.
Inconscientemente, tendemos a repetir padrões de dor como tentativa de “consertar o passado”. O cérebro prefere o conhecido — mesmo que doa —, porque já criou estratégias de sobrevivência ali.
É por isso que tantas pessoas permanecem em relações disfuncionais: porque a dor antiga parece mais segura do que o novo incerto.
O que chamamos de “falso desapego” é, na verdade, uma defesa.
Ele surge quando, na infância, aprendemos que ser vulnerável é perigoso. Assim, na vida adulta, fingimos não precisar de ninguém para evitar o risco de nos ferirmos novamente.
Mas esse desapego não é liberdade — é solidão disfarçada de força.
💬 A romantização da independência
Vivemos numa cultura que glorifica o “se vira sozinha”, o “não dependo de ninguém”.
Mas, como Arieli pontua, a independência pode ser apenas uma forma de isolamento emocional.
Para quem aprendeu que depender é perigoso, a rigidez da independência é um escudo.
A verdadeira autonomia é outra coisa:
é a capacidade de pedir ajuda sem se sentir fraca, de se apoiar sem se perder, de se vincular sem se anular.
Autonomia é liberdade com vínculo.
Independência é liberdade sem vínculo.
E o amadurecimento emocional está justamente em reconhecer a diferença.
🧩 A geração “apanhei, mas não morri”
Muitos de nós viemos de uma geração que acreditava que resistir era o mesmo que estar bem.
Mas resistir não é estar bem — é apenas não ter desabado ainda.
Pais e mães que “apanharam mas não morreram” criaram adultos funcionais, porém exaustos.
Aprendemos a suportar tudo, a dar conta de tudo, mas não a pedir ajuda.
E o resultado aparece nas estatísticas de ansiedade, burnout e depressão: sintomas de quem sobreviveu, mas não foi acolhido.
Mesmo que os estilos de apego inseguros nos tornem pessoas altamente competentes e produtivas, o preço emocional é altíssimo.
🌱 Quebrando padrões: consciência, reparação e segurança emocional
Romper o ciclo começa pela consciência:
dar nome ao que sentimos, perceber padrões, reconhecer que o que dói hoje tem raízes antigas.
A terapia é um espaço fundamental para isso.
Ela oferece um vínculo seguro — muitas vezes o primeiro — onde é possível experimentar uma nova forma de se relacionar com o outro e consigo.
Mas a cura também se dá fora do consultório, em vínculos saudáveis com amigos, parceiros e familiares.
E quando pais percebem que estão reproduzindo traumas?
A resposta não está na culpa, mas na autocompaixão.
Pedir desculpas, mudar o comportamento e se permitir reparar é o que reescreve a história — e oferece um novo modelo aos filhos.
Práticas simples, como exercícios de respiração (grounding) e a reconexão com o corpo, ajudam a restabelecer o senso de segurança e presença.
💖 Conclusão
A conversa com Arieli Groff nos convida a olhar para as feridas que herdamos sem culpa, mas com responsabilidade.
A infância molda nossos padrões de apego, e o falso desapego é, muitas vezes, o eco de uma infância sem escuta.
Mas é possível quebrar o ciclo.
Com consciência, terapia e autocompaixão, podemos reconstruir vínculos seguros, reparar o que foi rompido e transformar o desamparo em autonomia emocional.
Porque amadurecer é isso: aprender que pedir colo não é fraqueza — é um ato de coragem. 💜