
Convidada: Marina Martins
Uma reflexão sobre trabalho invisível, culpa, exaustão e o mito da mãe que dá conta de tudo
A maternidade é vendida como um lugar de amor absoluto, instinto infalível e entrega natural. Mas, como toda mulher que se tornou mãe já percebeu na pele, existe um abismo entre o que contam e o que se vive.
Na conversa do Nas Quartas Usamos Freud com Marina Martins, psicanalista e autora de Não Era Só Amor, abrimos uma porta necessária: a maternidade real não cabe na fantasia de que “amor basta”.
Porque amor não resolve privação de sono.
Amor não substitui rede de apoio.
Amor não distribui a carga mental.
E amor, sozinho, não sustenta a mulher que cuida de todos — e que tantas vezes não tem ninguém cuidando dela.
A psicanálise, a clínica e a vida mostram outra verdade: o amor é central, mas não é suficiente.
E admitir isso não é falta de amor.
É maturidade, lucidez e autopreservação.
🧠 O nascimento da mãe é também um luto
Segundo Marina, o “nascimento da mãe” não começa no parto — começa no luto:
• do corpo que já não é o mesmo
• da vida antiga que não volta
• dos vínculos que se reorganizam
• do tempo que some nas exigências do cuidado
• do próprio eu, que precisa se reconstruir
Esse processo é subjetivo, emocional e muito mais longo do que os “40 dias” que a cultura insiste em repetir. O puerpério, como ela explica, vai até o momento em que a mulher consegue voltar a existir para além do bebê, sonhar outros projetos, olhar para si de novo.
E para muitas, isso demora anos.
E está tudo bem.
💔 A romantização adoece — a verdade cura
A ideia da “mãe santa”, da mulher que não reclama, não cansa, não questiona e não falha veio de séculos de patriarcado.
Essa idealização tem consequências:
• gera culpa
• silencia pedidos de ajuda
• impede descanso
• normaliza exaustão
• esconde depressões maternas
• produz mulheres que vivem “no limite” e acham que a culpa é delas
Mas não é delas.
A exaustão é socialmente construída, como Marina lembra. É resultado de uma estrutura que espera tudo da mãe — e quase nada entrega de volta.
A psicanálise não serve para dizer o que a mãe deveria ser.
Serve para tirar o peso impossível do ombro dela.
🧺 O trabalho invisível que sustenta famílias (e ninguém vê)
Dentro das casas, existe um trabalho que não aparece em salário, férias, folga, reconhecimento ou estatísticas.
Mas sem ele, nada funciona.
É ele que acorda à noite.
É ele que previne acidentes.
É ele que pensa na mochila, na consulta, no uniforme, no lanche, na vacina, no aniversário, no remédio, no choro da madrugada.
É ele que carrega a carga mental, conceito que Marina destaca como um dos maiores fatores de adoecimento feminino.
Porque não é só sobre fazer.
É sobre não poder parar de pensar.
As mulheres, mesmo trabalhando fora, seguem responsáveis por grande parte da organização emocional da casa e dos filhos.
E quando precisam ensinar, corrigir e gerenciar a participação do pai, o desgaste se multiplica.
🪞 “Mãe suficientemente boa”: por que isso liberta
Winnicott nos ensina que mãe boa não é mãe perfeita.
É mãe que dá contorno, presença possível, falha e repara.
É mãe que oferece vínculo, mas também separação.
É mãe que ama — sem se apagar.
Cuidar não é fusão.
E não existe criança beneficiada por uma mãe que nunca vive para si.
💬 E o casal? A tríade que nasce junto
A chegada do bebê desorganiza a rotina, os horários, o corpo, as emoções — e desorganiza também o casal.
Marina lembra que esse é um período estatisticamente vulnerável a separações.
O que atravessa esse caos?
• paciência
• reparação
• divisão de tarefas
• diálogo adulto
• reconhecer que ninguém “se encaixa” nisso sem tropeçar
O imediatismo e os vínculos líquidos que a sociedade alimenta tornam esse período ainda mais desafiador.
Mas vínculos profundos exigem atravessar processos — não pular deles.
🌻 Politizar a maternidade é transformar vidas
A maternidade não precisa ser idealizada nem demonizada.
Precisa ser falada, pensada, nomeada, politizada.
Porque quando uma mulher entende que não é falha — é sobrecarregada — algo se reorganiza dentro dela.
O trabalho invisível deixa de ser invisível.
A culpa perde força.
E ela pode, finalmente, respirar.
💜 Amor que nutre não é amor que consome
Entre amar o filho e anular-se por ele existe um abismo.
E uma mulher não precisa pular nesse abismo para ser uma boa mãe.
Cuidar de si é também cuidado materno.
E filhos crescem mais seguros quando veem a mãe viver uma vida — não desaparecer dentro dela.
▶️ Assista à live completa
Se esse tema faz sentido pra você — como mãe, filha, mulher ou cuidadora — a live está gravada e disponível no feed do @advogoparaelas.
É uma conversa profunda, sensível e transformadora.